Tecnologia contra o isolamento dos idosos: o que a evidência mostra
Equipa MILAE
A equipa que constrói a MILAE

Vinte e uma revisões sistemáticas, 326 trabalhos, quase 80 mil participantes. A conclusão não é a dos comunicados de imprensa: a tecnologia raramente resolve a solidão, mas é boa a produzir a informação com que outros decidem.
Em resumo
A síntese mais ampla sobre o tema juntou 21 revisões sistemáticas, 326 trabalhos e 79.538 participantes: das 18 revisões que mediram solidão, 15 encontraram efeitos positivos, mas com nível de confiança baixo. Uma meta-análise de seis ensaios aleatorizados não encontrou diferença (-0,08; intervalo de confiança a 95% entre -0,33 e 0,17). O que a evidência distingue com clareza não é o aparelho, é o uso: reforçar laços que já existem funciona melhor do que criar laços novos, e o uso passivo das redes sociais é o único padrão associado a mais solidão nos dados europeus.
De poucos em poucos meses aparece um equipamento novo para a solidão das pessoas mais velhas. Um robô, uma pulseira, um tablet simplificado, um assistente de voz. O discurso é quase sempre o mesmo, e quase sempre feito sem citar nada. A literatura existe, é maior do que parece, e é bastante menos entusiasta.
Vinte e uma revisões, quase oitenta mil pessoas
A síntese mais ampla publicada até hoje é uma revisão de revisões de Eric Balki, Niall Hayes e Carol Holland, saída na JMIR Aging em 2022. Reuniu 21 revisões sistemáticas que, por sua vez, cobriam 326 trabalhos originais e 79.538 participantes. Das 18 revisões que mediram solidão, 15 encontraram efeitos positivos e 3 encontraram efeito nulo ou negativo.
É um resultado favorável, e os autores são os primeiros a pôr-lhe travão: a qualidade da evidência é baixa na escala GRADE e o desenho dos estudos varia demasiado para se somar com confiança. Escrever "a tecnologia reduz a solidão" com base nisto é ir mais longe do que os dados permitem.
E depois há a meta-análise
Quando se estreita o critério a ensaios aleatorizados e se somam os efeitos, o quadro muda. Wenwen Jin e colegas, na Frontiers in Psychology em 2021, agregaram seis ensaios com 391 participantes e não encontraram diferença: uma diferença média padronizada de -0,08, com intervalo de confiança a 95% entre -0,33 e 0,17. O zero está confortavelmente dentro do intervalo.
As duas leituras contradizem-se menos do que parece, porque não respondem à mesma pergunta. Uma conta quantos estudos apontam para onde; a outra mede o tamanho do efeito em condições controladas. O que a segunda diz, e os próprios autores o escrevem, é que a tecnologia funciona sobretudo como meio de comunicação e não como solução em si.
O que conta não é o tempo, é o tipo de utilização
Há um dado europeu que vale por muitos. Em Dezembro de 2024, o Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia publicou uma análise do inquérito de 2022 sobre solidão na União Europeia. O uso intensivo e passivo das redes sociais aparece associado a mais solidão. O uso activo, e o uso intensivo de mensagens, não mostram associação significativa.
Dito de outro modo: o mesmo ecrã, durante o mesmo tempo, dá resultados opostos consoante a pessoa esteja a ver a vida dos outros ou a falar com alguém. É a distinção que quase nunca entra nos folhetos.
O telefone não escapa ao escrutínio
Vale a pena olhar para o meio mais antigo de todos, até porque é o nosso. No ensaio HEAL-HOA, em Hong Kong, as chamadas de companhia feitas por voluntários foram usadas como termo de comparação e ficaram atrás das sessões estruturadas na redução da solidão medida ao fim de doze meses. No Reino Unido, o ensaio PLINY, de grupos de amizade por telefone, teve dificuldades de execução que o próprio relatório documenta com uma franqueza pouco comum.
A leitura honesta é esta: telefonar a alguém com regularidade não é, por si só, uma resposta demonstrada à solidão. Quem vender isso está a vender mais do que tem.
O que a evidência sugere que funciona
A revisão de revisões identifica factores que se repetem nos estudos com melhores resultados, e nenhum deles é a marca do equipamento. Contam a frequência de utilização, a facilidade de uso e o acompanhamento inicial. Conta, sobretudo, a direcção: reforçar laços que já existem dá melhores resultados do que tentar criar laços novos.
É um achado com consequências práticas para quem trabalha em acção social. Sugere que a tecnologia rende mais quando serve a relação que já existe entre o município e a pessoa, e não quando se propõe substituí-la.
Onde é que isto deixa quem decide
Se a evidência é modesta quanto a resolver a solidão, é bastante mais firme noutra coisa: o contacto regular produz informação. Uma pessoa que atende ou deixa de atender, que responde de maneira diferente da habitual, que menciona uma dificuldade nova. Nada disto é uma avaliação clínica, e não deve ser tratado como tal. É um sinal, e um sinal serve para alguém olhar.
É por essa razão que construímos a MILAE como instrumento de sinalização e não como companhia. A chamada acontece com a regularidade que a equipa de acção social do município define, o que se percebe fica registado, e quem decide o que fazer é sempre o técnico municipal. À tecnologia cabe a cobertura, que é aquilo em que é boa: chegar a toda a população sinalizada, todas as semanas, sem depender de quantas pessoas a autarquia consegue ter em campo.
A pergunta útil para um município não é se a tecnologia resolve a solidão. É se, no fim do mês, sabe mais sobre as pessoas que acompanha do que sabia no início. Essa pergunta tem resposta verificável.
Fontes
- Balki E, Hayes N, Holland C. Effectiveness of Technology Interventions in Addressing Social Isolation, Connectedness, and Loneliness in Older Adults: Systematic Umbrella Review. JMIR Aging, 2022
- Jin W, Liu Y, Yuan S, Bai R, Li X, Bai Z. The Effectiveness of Technology-Based Interventions for Reducing Loneliness in Older Adults: Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Frontiers in Psychology, 2021
- Comissao Europeia, Centro Comum de Investigacao. Loneliness and social media use in the European Union (13/12/2024)
- HEAL-HOA. Six-month outcomes of layperson-delivered, telephone-based interventions on loneliness among older adults. Age and Ageing, 2025
- PLINY. Putting Life in Years: telephone friendship groups, pilot randomised controlled trial. Trials, 2014
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