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O que a ciência sabe sobre a solidão (e o estudo que inspirou a MILAE)

Tiago Nunes

Tiago Nunes

Fundador da MILAE

20267 min
O que a ciência sabe sobre a solidão (e o estudo que inspirou a MILAE). Artigo de Tiago Nunes, blog da MILAE.

Durante anos tratámos a solidão como um assunto sentimental. A investigação das últimas duas décadas diz outra coisa: a solidão aumenta o risco de morte, de doença cardíaca e de AVC, e o isolamento social aumenta o de demência. E o estudo que mais me marcou não usou tecnologia nenhuma.

Há uma frase que aparece sempre que se fala de solidão: faz tão mal como fumar quinze cigarros por dia. Usei-a uma vez numa conversa e alguém me perguntou de onde vinha. Fui procurar. A resposta é mais interessante do que a frase.

Trezentas mil vidas, um número

Em 2010, Julianne Holt-Lunstad, investigadora da Universidade Brigham Young, publicou na PLoS Medicine uma das maiores revisões alguma vez feitas sobre relações sociais e mortalidade: 148 estudos, mais de 308 mil pessoas, seguidas em média durante sete anos e meio. A conclusão cabe numa linha: quem tem relações sociais fortes tem mais 50% de probabilidade de sobrevivência do que quem não as tem.

O efeito manteve-se em homens e mulheres, em novos e velhos, em pessoas saudáveis e doentes. E era comparável, escreveram os autores, ao de factores de risco bem estabelecidos, como o tabaco. A imagem dos quinze cigarros nasceu daí: num dos gráficos, o estudo usa como termo de comparação o efeito de fumar menos de quinze cigarros por dia. A frase feita é que não está lá escrita. Foi a tradução que o mundo encontrou para um número difícil de ignorar, e quem a assumiu por extenso foi o Surgeon General dos Estados Unidos, em 2023, num relatório que declarou a solidão uma epidemia de saúde pública.

Solidão e isolamento não são a mesma coisa

Antes de continuar, uma distinção que quase sempre se perde. O isolamento social é objectivo: com quantas pessoas fala, quem tem por perto, quantas visitas recebe. A solidão é subjectiva: é a distância entre a companhia que se tem e a que se queria ter. Pode-se viver rodeado de gente e sentir solidão. E pode-se viver sozinho sem a sentir.

A distinção importa porque os números são diferentes. Numa segunda revisão, em 2015, já com mais de três milhões de pessoas, a mesma equipa mediu as duas coisas em separado: o isolamento social aumenta o risco de morte em 29%, a solidão em 26%, viver sozinho em 32%. Vale a pena ler duas vezes: não é preciso sentir seja o que for para estar em risco. Basta que ninguém apareça.

O que o corpo faz com o silêncio

Os efeitos não ficam pela mortalidade. Uma meta-análise publicada na revista Heart em 2016 associou relações sociais pobres a mais 29% de risco de doença coronária e mais 32% de risco de AVC. A Lancet Commission sobre prevenção da demência incluiu o isolamento social na lista curta dos factores de risco modificáveis, responsável por cerca de 4% dos casos no relatório de 2020; a actualização de 2024 estima 5%. E em 2025 a Organização Mundial da Saúde pôs um número global em cima da mesa: a solidão está associada a mais de 871 mil mortes por ano. Cem por hora.

Quando a OMS cria uma comissão dedicada a um tema, como fez em 2023, e a Assembleia Mundial de Saúde aprova uma resolução sobre ele, como aconteceu em maio de 2025, esse tema deixou de ser sentimental e passou a ser assunto de saúde pública.

O estudo que me marcou

De tudo o que li sobre solidão, o estudo que mais me marcou não tem um único sensor, nem uma aplicação, nem um algoritmo. Tem pessoas ao telefone.

Durante a pandemia, uma equipa da Universidade do Texas recrutou dezasseis voluntários, quase todos estudantes, deu-lhes uma hora de formação em escuta empática e pediu-lhes que telefonassem com regularidade a 120 pessoas em risco, clientes de um serviço de refeições ao domicílio, a maioria com mais de 65 anos. Chamadas pensadas para durar menos de dez minutos, diárias na primeira semana e depois duas a cinco vezes por semana, durante um mês. Sem guiões, sem terapia, sem mais tecnologia do que o telefone que cada pessoa já tinha em casa. Os resultados saíram na JAMA Psychiatry em 2021: a solidão desceu de forma mensurável, e a depressão e a ansiedade também.

Uma hora de formação e um telefone. Quatro semanas. Foi este estudo que me convenceu de que o que protege as pessoas não é o dispositivo: é a conversa regular, à hora certa, com alguém que repara. O resto, a parte que na MILAE fazemos com tecnologia, existe para garantir que essa conversa acontece todos os dias e que alguém fica a saber quando algo muda. O como é o nosso trabalho. O porquê está nestes estudos.

O que ainda não está provado

Devo dizer com a mesma clareza o que a ciência ainda não mostrou. Não conheço nenhum ensaio aleatorizado e controlado que meça, ao longo do tempo, o efeito de uma inteligência artificial de voz na solidão de pessoas idosas. A evidência forte é sobre chamadas humanas e empáticas. É também por isso que a MILAE não se apresenta como substituta de ninguém: a chamada garante presença regular e sinaliza aos serviços de acção social quem precisa de atenção humana. A conversa que vale é a que acontece a seguir.

A solidão não se resolve com mais um aparelho na parede. Resolve-se com presença regular e com alguém que repare na ausência. A ciência, por uma vez, diz o mesmo que o senso comum. Agora com números.

Fontes

Quer saber como a MILAE acompanha idosos isolados através de chamadas telefónicas regulares?

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