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Meio milhão de pessoas com mais de 65 anos vivem sozinhas em Portugal

Francisco Macedo

CTO da MILAE

20266 min
Meio milhão de pessoas com mais de 65 anos vivem sozinhas em Portugal. Artigo de Francisco Macedo, blog da MILAE.

Os Censos de 2021 contaram 517.146 pessoas com 65 ou mais anos a viver sós. Somos o segundo país mais envelhecido da União Europeia. Estes são os números oficiais, e o que eles pedem a quem trabalha num município.

Os números têm um defeito: habituamo-nos a eles. Quando os Censos de 2021 contaram 517.146 pessoas com 65 ou mais anos a viver sozinhas, a notícia durou um dia. O número ficou. Vale a pena olhar para ele devagar.

O país que envelheceu primeiro

Portugal é hoje o segundo país mais envelhecido da União Europeia: 24,3% da população tem 65 ou mais anos, e só a Itália está à nossa frente. O índice de envelhecimento não pára de subir: 192 idosos por cada 100 jovens em 2024. Em 2015 andava nos 148.

E não é uma fase. As projecções do INE apontam para um pico perto dos 3,5 milhões de pessoas com 65 ou mais anos no início da década de 2050. O índice de dependência de idosos, hoje nos 39 por cada 100 pessoas em idade activa, deverá aproximar-se de 73 ao longo deste século. Não há plano de contratações, em nenhuma câmara, que acompanhe esta curva só com pessoas.

Meio milhão de portas

De todos os números, o que mais diz é o dos Censos: 517.146 pessoas com 65 ou mais anos vivem sozinhas. É cerca de metade de todos os agregados unipessoais do país. Acima dos 80 anos, quase quatro em cada dez pessoas (37,8%) vivem num agregado sem núcleo familiar. E a concentração é maior no interior norte e centro, e na Madeira: precisamente onde as equipas são mais pequenas e as distâncias maiores.

Cada uma destas portas é uma rotina que ninguém vê. Na maioria não são casos sinalizados por serem graves. São pessoas que fazem a sua vida, até ao dia em que uma queda, um esquecimento ou um desânimo muda tudo. Sem testemunhas.

Quem já anda a bater a estas portas

Portugal não parte do zero. A GNR, na operação Censos Sénior de 2024, sinalizou 42.873 idosos a viver sozinhos, isolados ou em situação de vulnerabilidade. Em Lisboa, o projecto RADAR, conduzido pela Santa Casa da Misericórdia no âmbito de um programa municipal, fez perto de 29 mil entrevistas e sinalizou mais de 11 mil pessoas a viver sós ou apenas com outras da mesma idade. E há câmaras, juntas de freguesia e IPSS com levantamentos próprios.

Estes programas provam duas coisas. Primeiro, que é possível sinalizar: sabemos onde as pessoas estão. Segundo, que sinalizar não chega: depois do censo, alguém tem de voltar. E voltar todas as semanas, a milhares de casas, com equipas de meia dúzia de técnicos, não é a vontade que o impede. É a aritmética.

A aritmética do acompanhamento

Façamos as contas por baixo. Um concelho com 3.000 idosos sinalizados e cinco técnicos de acção social: ainda que cada técnico consiga oito contactos por dia, todos os dias úteis, passa pouco mais de um trimestre entre contactos com a mesma pessoa. Tudo o que acontecer nesse intervalo é invisível.

Foi esta distância que nos propusemos encurtar com a MILAE: uma chamada regular a cada pessoa, e para os técnicos um retrato diário de quem precisa deles primeiro. Não substitui a visita, mas diz onde ela faz mais falta.

Os números do envelhecimento português não são uma surpresa: são a coisa mais anunciada do país. A pergunta que fica é outra. Com esta curva e com estas equipas, o que é que cada concelho sabe, hoje, sobre os seus maiores de 65 que vivem sós? Quem responde com um nome e uma data está preparado. Uma estimativa não chega.

Fontes

Quer saber como a MILAE acompanha idosos isolados através de chamadas telefónicas regulares?

Ver como funciona a MILAE